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Onde está a tecnologia e a inovação no discurso dos candidatos?

Renato de Castro

2017-09-20T18:04:00

17/09/2018 04h00

Imagem conceitual da tecnologia de transporte de massa Hyperloop que acaba de pousar no Brasil. Foto: SpaceX

Vou confessar a vocês que estou meio perdido. Mesmo à distância, tento acompanhar o que está acontecendo no cenário político brasileiro. Afinal, mesmo aqui no exterior, nós, brasileiros, temos a obrigação legal e moral de ajudar a eleger nossos futuros governantes. No meu caso, só será possível votar para presidente nas eleições deste ano. E no dia certo estarei pontualmente na porta do consulado do Brasil em Barcelona para exercer minha cidadania.

A questão, contudo, é decidir quem melhor poderá me representar por aí. Entre prisões e atentados, o cenário está muito confuso e não vejo nenhum candidato com uma agenda séria e madura em relação ao futuro da inovação e da tecnologia para as cidades da nossa querida Tupinicolândia. "Ah Renato, mas isso não é prioridade", muitos devem estar pensando. Temos ainda problemas básicos para resolver como segurança, saúde e educação, certo? Mas quem disse que esses temas não estão relacionados com novas tecnologias?

Você já ouvir o termo leapfrogging, muito usado na teoria do crescimento econômico? A tradução literal para o português seria aquela brincadeira de criança chamada pula-sela ou pula-carniça. Mas em economia significa pular etapas. Na prática, quer dizer que o crescimento econômico ou a evolução tecnológica em um determinado setor pode acontecer de forma não linear. Indo do ponto A para o Ponto C, sem necessariamente passar pelo B.

Vou dar um exemplo: o famoso Elon Musk, sim, o dono da Tesla, decidiu lançar um desafio mundial em 2013. Ele queria ideias para promover uma disrupção no setor de transportes de massa. Nasce então a "startup" (milionária) chamada Hyperloop One. A ideia é simples: transportar pessoas e cargas em tubos pressurizados dentro de uma cápsula movida por uma turbina. Sem o atrito do ar, esse veículo poderia atingir velocidades incríveis, teoricamente. O projeto prevê chegar aos 1.250 km/h. Significa dizer que uma viagem entre o centro do Rio de Janeiro e o centro de São Paulo poderia ser feita em torno de 20 minutos, ou ainda mais, de Fortaleza a Porto Alegre em pouco menos de 3 horas. Para você ter uma ideia, os trens-bala mais rápidos do mundo não passam de 430 km/h (o trem Maglev em Xangai) e 360 km/h (o trem Frecciarossa, na Itália).

E a nova solução não é competitiva somente na velocidade. Segundo a empresa, o custo de implantação do sistema será em torno de 60% do investimento atual para construir um trem-bala. E o projeto poderá ser concluído em metade do tempo que se levaria para trens de alta velocidade. Isso é leapfrogging na veia: uma tecnologia disruptiva mais avançada engolindo a atual.

Países que ainda não tem um trem-bala, como o Brasil, provavelmente nunca o terão pois não valerá a pena. Sairão das "marias-fumaças "direto para os Hyperloops, ou algo similar. O sistema atualmente já está em teste no deserto da Califórnia (EUA) e há iniciativas em torno da tecnologia em vários outros países, como França, Indonésia, Índia, além dos Emirados Árabes Unidos, que foram os primeiros a assinar com a empresa.

A boa notícia aqui, no caso do Hyperloop, é que a empresa acabou de negociar com o governo de Minas Gerais (abril 2018) a criação de seu mais novo Centro Global de Inovação e Logística, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Um projeto de 26 milhões de dólares em forma de PPP (Parceria Público-Privado) no qual o governo investirá 13 milhões e a iniciativa privada a outra metade.

É fantástico ver o Brasil entrar nesta lista seleta de pioneiros em tecnologia, mas a questão aqui é: não deveríamos ter essa pauta como prioritária para nossos candidatos à presidência? Se a tecnologia pode fazer leapfrogging deste nível nos transportes, imagina então o que seria possível na saúde, educação, saneamento básico, moradia – o que você acha disso, sr. candidato?

João Kepler, meu estimado amigo do mundo da inovação e conhecido como o brasileiro das 1.000 startups, fez um estudo bem interessante sobre isso: O que os Presidenciáveis escrevem sobre empreendedorismo no Brasil. Kepler afirmou após analisar o plano de governo proposto pelos 13 candidatos: "Confesso que me desapontei! No geral, o empreendedorismo é citado muito pouco, de forma abrangente ou em situações bem específicas fora do mundo digital. Gostaria de relatar neste artigo um cenário diferente, onde nossos candidatos realmente dessem o devido valor aos empreendedores digitais – não são poucos espalhados pelo País e são uma grande alternativa ao desenvolvimento econômico."

Os tão sonhados 50 anos em 5 do plano de metas do saudoso presidente JK nunca estiveram tão perto de ser possível. A única diferença é que se usarmos a tecnologia e o conceito de leapfrogging não precisaremos endividar o Brasil pelas as próximas 3 gerações para fazermos esse leap novamente. Deixo vocês com essa pergunta para fazer ao seu candidato: o que você acha disso meu querido candidato? Nos vemos na próxima semana!

 

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh, etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.