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Venda seu carro enquanto é tempo: a MaaS está chegando

Renato de Castro

26/11/2018 04h00

O conceito de veículo autônomo "editável" proposto pela startup Open Motors. Foto: Open Motors

Hoje me lembrei com muita nostalgia do dia 9 de novembro de 1991: o dia mais longo da história! Pelo menos da minha história. Aquelas 24 horas que antecederam meus 18 anos foram longas, muito longas. A ansiedade de chegar à maioridade, no meu caso, tinha somente uma causa: receber minha carteira de motorista e sair pelo mundo dirigindo meu primeiro carro. Ah, se eu soubesse do futuro! Minha vida teria sido bem mais tranquila, ao menos.

Já discutimos amplamente em outras oportunidades porque nosso modelo urbano baseado no transporte individual (por carros) está totalmente errado, lembra? Só relembrando alguns números que comprovam a ineficiência desse modelo: atualmente temos mais de 1.4 bilhões de carros circulando pelo nosso planeta. Um carro transporta, na média mundial, 1,7 pessoa por ano. Ele fica estacionado 80% de toda a sua vida útil e, ainda pior, ocupa 50m² de nosso espaço urbano, somente considerando a necessidade de estacionamento em casa e no trabalho. Se incluirmos as ruas, pontes, viadutos e túneis, a área necessária para a mobilidade motorizada ocupa em média 50% de todo o território urbanizado de uma cidade!

E ainda piora: 30% do trânsito no centro das nossas cidades é causado por pessoas procurando vagas para estacionar. Por fim, 25% da poluição das nossas áreas urbanas são consequência do nosso modelo de mobilidade a combustão, cujos protagonistas são quem? Eles mesmos – nossos queridos, amados e muitas vezes idolatrados carrinhos.

Diante de todos esses fatos, nem preciso argumentar para mostrar que tudo vai mudar, certo? Na incansável luta por criar cidades mais inteligentes, duas previsões já podem ser consideradas irreversíveis:

  • Nossa matriz de mobilidade urbana vai, sim, migrar 99% para além dos combustíveis fósseis, principalmente à base de energia elétrica.
  • O conceito da propriedade, no que toca à mobilidade, vai mudar radicalmente: não compraremos mais carros, mas sim o serviço de deslocamento do ponto A ao ponto B, recentemente apelidado de MaaS – Mobility as a Service – ou mobilidade como serviço.

Com todo o avanço que vemos no setor, eu poderia até arriscar que em um futuro, talvez não tão próximo, será mais difícil obter uma carteira de motorista do que um brevê de piloto de avião. Os veículos elétricos e autônomos já são uma realidade em nossas cidades. E entre carros, bicicletas, patinetes, acertos e erros fatais, eles estão evoluindo.

Mas não fique triste. Você corre o risco até de não poder mais dirigir, mas que os veículos em que você andará serão fantásticos, isso eu posso afirmar sem medo de errar. E se você não teve a oportunidade de dirigir um Tesla, os fantásticos patinetes e bicicletas elétricas já estão ao alcance de todos nas principais cidades mundiais, incluindo São Paulo.

O mercado chinês, atualmente o maior mercado mundial da indústria automobilística, é um bom termômetro para entender essas tendências. Baseado em um estudo da Associação Chinesa de Montadoras de Veículos (CAAM), atualmente, o que chamamos de mobilidade pessoal, ou seja, tudo que você pode comprar e colocar na sua garagem, representa 38% do total da mobilidade na China. O transporte público ainda tem o maior percentual, com 49%, e a chamada mobilidade compartilhada já representa 13%, o que é impressionante.

A Didi, gigante chinesa da mobilidade, já oferece a MaaS em 11 categorias de transporte: das bicicletas aos veículos "superluxo". Foto: ChinaMoneyNetwork

Mas as projeções para o futuro no país vermelho ilustram bem o que eu quero dizer neste texto. A mobilidade pessoal cairá de 38% para apenas 5%. O transporte público reduzirá para 30% e a mobilidade compartilhada representará 65%. Só para ter uma ideia do tamanho deste mercado, estima-se que em 2020 a China terá um mercado doméstico de mais de 200 milhões de veículos.

Segundo o último relatório da gigante Intel junto com a empresa de consultoria Strategy Analytics, a MaaS combinada com Inteligência Artificial (IA) para veículos autônomos vai resultar em um mercado de 7 trilhões de dólares: USD 3.7 trilhões para o transporte de pessoas, USD 3.2 trilhões para movimentar produtos e um mercado de mais de USD 200 bilhões para pequenos negócios, como restaurantes.

E não se iluda, todo esse movimento já começou. Empresas como Uber são somente a ponta do iceberg da MaaS. O carro mencionado no início desse texto, que passava 80% do tempo na garagem, passou a ser utilizado, ou melhor, superotimizado, em uma média de 20 horas por dia. E já são 3 milhões de motoristas e mais de 75 milhões de clientes ao redor do mundo. O serviço é ofertado em 65 países, totalizando mais 15 milhões de viagens por dia. Isso para falar de uma empresa (Uber) que conhecemos bem no Brasil. Se avaliarmos o caso da Didi, chinesa, também veremos que já está presente em mais de 400 cidades, contando com 450 milhões de usuários e 20 milhões de viagens diárias. Wow!

Venda seu carro enquanto ele ainda vale alguma coisa. Em um futuro próximo, ele terá tanto valor quanto as linhas de telefone fixo que seu pai recebeu como herança de família… Nos vemos no próximo texto!

 

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.

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