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4 milhões de bebês morreram em 2017 – por que a tecnologia não os ajudou?

Renato de Castro

03/12/2018 04h00

Factfulness está na lista dos cinco livros indispensáveis de Bill Gates. Fonte: Fortune.com

Nesta semana estou em Lusail. Acredito que poucos aí no Brasil têm ouvido falar nesta cidade. Lusail é uma cidade planejada no Qatar (ou Catar), localizada na costa, na parte norte do município de Al Daayen, a cerca de 23 km ao norte do centro da capital, Doha. É a minha primeira vez aqui e vim para ministrar um treinamento para uma equipe de gestores públicos. Neste texto gostaria de compartilhar com vocês uma outra visão de mundo.

Quando experienciamos culturas tão diferentes é que nos damos conta de que não somente conhecemos bem pouco sobre a diversidade mundial, como o quanto somos influenciados pelo senso comum e "pré-conceitos". Além da modernidade do país, me chamou muito a atenção o fato de ter 15 alunas entre os 20 participantes do curso. Ainda que conservadores (menos que os sauditas, mas muito mais que os emiratis) os qataris (como são chamados os cidadãos locais) foram supersimpáticos, abertos e curiosos. Mas isso ainda não mata a sua curiosidade do porquê de tantas crianças mortas no ano passado, certo? Estamos quase lá!

Sempre que vou fazer uma palestra ou ministrar um curso novo, eu o começo com o slide abaixo. Factfulness foi o termo criado pelo escritor Hans Rosling, que deu nome ao seu bestseller, para descrever a satisfação de declarar sua opinião com base em evidências, ao invés de adivinhar. Além disso, costumo usar um copo de café pela metade, fazendo uma analogia à parábola do "copo meio cheio, meio vazio" que muita gente conhece.

No livro, o autor evidencia dez razões pelas quais estamos errados no mundo e por que as coisas são melhores do que você pensa. O livro tornou-se rapidamente um bestseller internacional e será traduzido para 36 idiomas. Atualmente, está disponível em 11 línguas, incluindo o árabe, mas infelizmente ainda não em português, então decidi trazer para vocês os argumentos do autor. FATOS e não suposições, "senso comum" ou pré-conceitos… Portanto, responda rápido: o que você acha que aconteceu com a pobreza extrema no planeta nos últimos 20 anos? Dobrou, se manteve a mesma ou foi reduzida pela metade? Já te conto.

Foto: Apresentação RDC por Fabrício Lemos – Grupo Seixas

Em um mundo ideal, a mídia deveria apresentar as notícias da forma mais real e acurada possível, fornecendo o máximo de fatos e contextos para torná-las ainda mais relevantes. Mas, infelizmente, vivemos a realidade em que as notícias viraram um grande negócio, que precisa de clientes (nós, os leitores). Por outro lado, adoramos noticias bem mastigadas e cheias de drama, não é verdade? Esse é um dos argumentos principais do autor para explicar o porquê da nossa visão de mundo ser tão restrita, não passando de uma representação pobre da realidade.

Toda essa confusão nos leva a pensar que as pessoas estão vivendo de forma pior atualmente do que se comparado ao passado. Mas essa percepção está bem longe de ser verdade. De fato, existe muito menos pobreza atualmente do que em qualquer outra época de toda a evolução humana, pessoas em todas as partes estão vivendo mais, e menos partes do mundo são governadas por patriarcados opressores e sexistas. Todas essas mudanças positivas são resultado da economia global que vivenciamos e que tem aumentado o nível de renda das pessoas. Se combinarmos os países de níveis de renda médio e alto, veremos que totalizam 91% de toda a humanidade. Isso é realmente incrível se considerarmos que, há 200 anos, 84% das pessoas no mundo viviam na pobreza.

Voltando à pergunta anterior sobre a pobreza extrema mundial, você já imagina qual a resposta correta, certo? Isso mesmo, ela diminuiu pela metade em somente 20 anos. Se você respondeu certo, você é uma das pouquíssimas pessoas que acertaram – nos Estados Unidos, por exemplo, somente 5% das pessoas perguntadas acertaram. Na Inglaterra, somente 9%, incluindo professores universitários e cientistas. O autor também atribui essa visão distorcida ao que ele chama de megamisconception (megaequívocos), como Oriente versus Ocidente ou países desenvolvidos versus países subdesenvolvidos, que muitas vezes usamos para justificar muita coisa no Brasil.

Analisando a taxa de mortalidade infantil, que ilustra bem a saúde, educação e sistemas econômicos de um país, notaremos que em 1965, 125 países estavam na categoria "em desenvolvimento" (nome politicamente correto para subdesenvolvidos). Atualmente, essa categoria, no que tange a países com mortalidade infantil até os 5 anos de idade, conta com apenas 13 países apresentando taxa maior do que 5%.

Erradicar a pobreza e diminuir desigualdades são fundamentais para o desenvolvimento. Fonte: website Brasil Sustentável 2030

Outra pergunta para você: entre as nações de baixo nível de renda, qual o percentual de meninas que consegue concluir a educação em uma escola pública? 20%, 40% ou 60%? Já entendeu que a resposta será a mais positiva, certo? E não é só isso, nesses países, mulheres na faixa de 30 anos cursaram, em média 9 anos de educação formal na escola, o que é somente 1 ano a menos do que a média mundial de tempo de estudo para homens de 30 anos! Incrível, não? Pena que poucas pessoas sabem dos FATOS!

Outra parte grande destes megaequívocos vem do nosso instinto humano natural de negatividade e de medo. Evoluímos como espécie assim, sempre esperando o pior, por milhares de anos, para garantir nossa sobrevivência. Mas hoje com menos ameaças como tigres dente-de-sabre ou tribos rivais, o instinto de medo definitivamente acaba distorcendo nossa percepção. A verdade é que em todas as estatísticas mundiais possíveis de mensuração, da expectativa de vida aos níveis de pobreza, o autor pode verificar uma melhora considerável.

Quando você lê que 4 milhões de crianças morreram no ano passado, a dimensão deste número pode te levar a pensar que vivemos em tempos terríveis. Porém, ao olharmos quantos bebês morreram em 1950 – 14.5 milhões – temos uma ideia mais precisa sobre a realidade em que vivemos. Em um mundo ideal nenhum bebê morreria, mas como não vivemos nele, é importante contextualizar o que chamamos infortúnio para poder perceber o progresso.

A tecnologia não somente nos ajudou a mitigar os nossos problemas urbanos, mas também proporcionou um nível elevado de comunicação e conectividade. Temos acesso mais rápido, irrestrito e sem fronteiras à informação. Como as notícias negativas como violência, catástrofes, terrorismo vendem mais do que as boas, precisamos aprender a analisar mais os fatos e os contextos. Para cada morte que você lê em noticias sobre desastres, como terremotos e inundações, há muito mais pessoas que sobrevivem aos desastres naturais agora do que antigamente. Atualmente, o número de mortes mundiais relacionados a desastres naturais é somente 25% do que era há 100 anos.

A população do mundo não continuará crescendo de forma ameaçadora à nossa existência. Mais de 80% dos bebês em todo mundo são vacinados contra algum tipo de doença, e assim vai… O livro é bem interessante e está cheio destes exemplos. Vale a leitura. O mundo está melhor e melhorando, acredite. E isso não é a minha percepção, é estatística! Estou bem curioso para ouvir a sua opinião sobre o tema, então não esqueça de deixar seus comentários abaixo! Nos vemos no próximo texto.

 

 

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh, etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.