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O futuro está no Vale do Silício? Talvez você esteja errado

Renato de Castro

22/10/2019 04h00

A ponte HZM (Hong Kong – Zhuhai – Macau) é a mais extensa do mundo, com 55 km, e foi inaugurada ano passado como estratégia de desenvolvimento da GBA. Foto: TeleTrader

Não sei se você sabia, mas eu morei na China por mais de seis anos. De 2006 até o final de 2013, eu tive o privilégio de acompanhar de perto o ressurgimento do dragão adormecido. A verdadeira disrupção econômica chinesa é a velocidade de crescimento: o país, que até a década de 70 exportava menos de 2% do seu PIB, se transformou em um dos líderes mundiais de desenvolvimento de novas tecnologias.

Inovação é exatamente o foco do governo central de Pequim ao criar uma nova região econômica no sul do país, a Greather Bay Area (GBA). O projeto consiste em interligar as principais cidades às margens do Rio das Pérolas, como Guangzhou e Shenzhen, às duas regiões de regime administrativo especial: Hong Kong, ex-colônia Inglesa, e Macau, que até 1999 foi administrada por Portugal. 

Para vocês terem ideia do que isso significa do ponto de vista econômico, a GBA possui um PIB anual de 1.8 trilhões de dólares, mais ou menos a metade do PIB brasileiro. Sua área de um pouco mais de 1% do território chinês representa 12% do PIB nacional e abriga 70 milhões de pessoas, população maior que a do Reino Unido e duas vezes a do Canada.

Não se convenceu? Então vai mais uma: o frete aéreo de produtos nessa região é maior que se somarmos os de Nova Iorque, São Francisco e Tóquio! Se não bastasse isso, três dos dez mais importantes portos de contêineres no mundo estão localizados lá. Não é à toa que essa área está sendo chamada de o Vale do Silício da China e que eu tinha que ir conferir o que está acontecendo neste país que me acolheu tão bem e que um dia chamei de lar.

Entre vários projetos que visitei por minha passagem por Hong Kong, Shenzhen e Guangzhou, o que mais me impressionou foi a cidade inteligente da gigante Cisco, que está sendo construída em uma área de 3,5 quilômetros quadrados ao lado do distrito universitário de Panyu.  

Como todo projeto "greenfield", a cidade da Cisco já nasceu ambiciosa: serão investidos mais de três bilhões de dólares na construção de toda a infraestrutura. Com as obras iniciadas em 2016 e previsão de conclusão até 2026, a primeira das três fases do projeto, que conta com investimentos em pesquisas de diversos conglomerados globais, já deve ser inaugurada ano que vem. Inteligência artificial, internet das coisas, veículos autônomos, drones para entrega de mercadoria e transporte de pessoas são algumas das tecnologias que estarão disponíveis para seus mais de 200 mil habitantes no futuro.

Em conversa com um dos gestores do projeto na Cisco, Andy Lin, ele ressaltou duas das principais vantagens competitivas da nova cidade: o compromisso do governo local em flexibilizar a legislação para o teste de tecnologias disruptivas, seguindo o modelo criado no Vale do Silício pelo governo da Califórnia, e a proximidade da cidade universitária que abriga 11 instituições de tecnologia, sendo que três delas estão entre as melhores do país e, juntas, têm mais de 16 mil alunos. Ao longo dos últimos anos, os centros acadêmicos já "exportaram" mais de 40 mil talentos para o mundo e um dos objetivos do projeto é exatamente reter esses profissionais na China.

A corrida pela liderança mundial no campo da tecnologia só está começando e, diferente do que muitos pensam, a China está sim no páreo e, aparentemente, muito mais à frente que tradicionais competidores, como Rússia, Japão e Alemanha. Só o futuro nos dirá quem vai vencer essa competição, mas só o fato de não haver uma superioridade unilateral já me parece bastante salutar. Que venha então o Vale Chinês.

Grande abraço e até a próxima semana.

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.

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