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Sabe qual é a cidade mais inteligente do mundo deste ano?

Renato de Castro

26/11/2019 04h00

A capital da Suécia fica no topo do ranking das cidades inteligentes em 2019 (Tommy Takacs/ Pixabay)

Barcelona recebeu o mais importante e concorrido evento do mundo das cidades inteligentes na semana passada, o Smart City World Expo 2019, que discutiu o futuro dos nossos municípios.

Todos os anos, a cerimônia que premia, em diversas categorias, os melhores projetos de cidades, empresas e universidades é um dos maiores atrativos e, pelo menos aqui, o Brasil se destacou. Na premiação de projetos relacionados ao ambiente urbano, São Paulo chegou à final com o "Plataforma Verde", da CTR-E, uma iniciativa público-privada para gerenciar o lixo da cidade. O município concorreu com a francesa Begles e a americana Madison, que levou o troféu.

A segunda categoria que concorremos foi a de projetos relacionados às cidades mais inclusivas e compartilhadas. Aqui, comparecemos com Belo Horizonte, representada por Leandro Moreira Garcia, presidente da empresa municipal de processamento de dados Prodabel. Lembra que fizemos uma visita a eles no ano passado e vimos diversos projetos bacanas? A capital mineira disputou com outros dois projetos: o superprograma de integração social do Bairro 31, do governo municipal de Buenos Aires, e o projeto de orçamento participativo de Kiev, a gelada capital da Ucrânia. Desta vez, nossos hermanos levaram a melhor.

A última categoria que concorremos foi a mais esperada da noite: a de Cidade Inteligente 2019. Junto com a nossa querida Curitiba, que, como tenho enfatizado há anos, tem Smart City no seu DNA, Montevidéu também marcou presença entre as finalistas que incluía, ainda, Bristol, na Inglaterra, e Estocolmo, na Suécia. Completaram o páreo, a fortíssima capital coreana de tecnologia e inovação, Seul, e a vibrante, controversa e temporariamente desconectada capital do Irã, Teerã, para onde devo embarcar em dezembro para ministrar uma palestra, que chegou à final com o projeto Smart Tehran.

Não preciso nem dizer que, este ano, a torcida por Curitiba estava grande; éramos, sem dúvida, os mais animados da plateia. Contudo, toda a energia positiva não foi suficiente para garantir a estatueta e o "Oscar" da cidade inteligente foi para o extremo norte, quase nas terras do Papai Noel, Estocolmo.

Tirando a minha frustração nacionalista que, sem dúvida, é muito mais sentimental que racional, eu fiquei feliz com o resultado. Primeiro, porque o fato de ter uma cidade brasileira entre as finalistas da categoria principal já é, por si só, uma grande vitória. Além disso, o prêmio para Estocolmo reitera fortemente a minha teoria de que não somos nós que estamos fazendo cidades mais inteligentes, mas sim a sociedade que está evoluindo para um novo modelo de convivência social e os países nórdicos (Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega) são os melhores exemplos da minha teoria. Grattis (parabéns em sueco) aos holmienses! Esse é literalmente o resultado do trabalho não de uma pessoa, empresa ou cidade, mas sim o avanço de uma sociedade.

Curitiba foi a representante brasileira na categoria de Cidade Inteligente 2019 (Maria do Carmo Duarte Freitas/ Pixabay)

Embora não seja oficial, acredito que os critérios para a escolha da cidade do ano vão além da simples análise de números e índices e inclui, também, seguir uma lógica geopolítica, levando em consideração o contexto regional onde a cidade está inserida e a evolução dos projetos relacionados a melhoria da qualidade de vida.

Assim, em 2016, a estatueta foi para Nova York. Já em 2017, o inusitado primeiro lugar de Dubai deu uma visibilidade global para a cidade. Em 2018, Cingapura levou a melhor e, para mim, ela continua na lista das top três cidades mais inteligentes do mundo.

A cidade de La Paz, capital da Bolívia, também marcou presença este ano ao levar o prêmio de mobilidade com o seu projeto de teleférico urbano. O modelo que utiliza o teleférico como transporte público em cidades com relevo irregular, principalmente em cidades com grandes diferenças sociais, não é novidade. Na América Latina, a cidade de Medellín, na Colômbia, foi a pioneira, seguida pelo nosso milionário, sucateado e abandonado projeto do teleférico do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Pelo que fiquei sabendo, o sistema deverá ser implantado novamente no país, mas agora na cidade de Juazeiro do Norte. Esse modelo é uma forma eficiente de "unir o morro ao asfalto", como dizemos por aí.

Embora toda cidade que leva realmente a sério seus projetos de Smart City não devesse estar preocupada em ganhar prêmios, mas sim em atingir seu objetivo principal de melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, isso faz parte da natureza humana e um reconhecimento internacional como esse pode ajudar muito na atração de investimentos.

Como 2020 já está batendo em nossas portas, não podemos perder tempo! Seguindo uma lógica geopolítica, depois da América do Norte, Oriente Médio, Ásia e Europa, temos grandes chances que o grande prêmio da Smart City World Expo 2020 saia para uma cidade latino-americana. Já coloquem na agenda de vocês!

Tendo participado da feira pela quarta vez, sou testemunha de como ela tem crescido e, neste ano, atraiu 1.010 expositores, 400 palestrantes, 700 cidades, 146 países e mais de 24.300 visitantes. Paralelo à exposição, cinco palcos abrigaram diversas palestras. É um ambiente super rico para networking.

No evento, organizado pela Fira Barcelona,, é evidente o aumento no número de representantes de cidades e regiões. A China, por exemplo, estava representada em quatro grandes pavilhões. Itália, França, Holanda, Espanha, Bélgica, Estônia, Luxemburgo, Estados Unidos, Canadá e os países nórdicos também cravaram suas bandeiras este ano em Barcelona. Já as cidades de Tel Aviv, Cingapura, Seul, Bristol, Moscou e a anfitriã Barcelona também estavam ali para mostrar porque são cidades inteligentes e bons lugares para se investir.  Nossa modesta e tímida América do Sul estava representada somente pelos estandes do Chile e de Montevidéu.

Não se esqueça que em março teremos o Smart City Expo Curitiba 2020, a versão latino-americana oficial do evento, organizada pela Fira Barcelona em conjunto com o iCITIES. Será uma excelente oportunidade para nossas cidades aquecerem os motores e afiarem o pitch para o mundial de Barcelona.

Um grande abraço e nos vemos na próxima semana.

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.

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