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O fim de "O Mecanismo": governo digital é a cura para um sistema corrupto?

Renato de Castro

26/02/2020 04h00

Brasil ocupa a 44ª posição no ranking da ONU de países que adotam os conceitos de governança digital (Renato Araujo/Agência Brasília)

Três dias de molho em casa com uma gripe chata. Tosse, febre, dores no corpo e muito, muito tempo para ver televisão. Essa foi a combinação perfeita da semana passada que me deu a oportunidade de finalmente devorar a tão comentada série brasileira O Mecanismo. Acho que "comi" uns 16 episódios em menos de 48 horas. Como toda boa farra gastronômica, as consequências você sente mesmo é durante o processo de digestão. 😳 

Câncer é câncer. Se não extirpar logo, ele espalha."

— O Mecanismo

Não estou aqui hoje para dar minha opinião pessoal sobre a veracidade ou imparcialidade da trama, até porque muitos poderiam dizer – e com razão – que o fato de eu estar há mais de 15 anos fora do Brasil não me credencia muito para julgar. Sempre aquele velho argumento: "você não passou por isso para saber!" Ah, já ouvi muito isso… semana passada inclusive …  

Meu ponto aqui é no argumento proposto de que o problema político-econômico-social no Brasil é histórico. A corrupção está no nosso DNA desde quando nascemos como nação e, pior, esse processo se desenvolveu e foi perfeiçoado ao longo dos anos de forma sistemática e metódica, criando um ciclo que se retroalimenta. "O Mecanismo" retratou isso muito bem  e realmente prendeu minha atenção. Kudos! É triste, sim, é verdade, mas não é incurável como muitos, incluindo o Ruffo, pensam. E mais: acho que a solução está bem mais próxima e acessível do que parece.

Não tem partido, não tem ideologia, não existe esquerda ou direita. Quem está no governo tem que botar a roda pra girar, é um padrão."

— O Mecanismo

Para você, qual é o significado de digital? Fácil, não? O termo se popularizou tanto que encontramos ele sendo usado para qualificar praticamente tudo. Influenciador digital, mundo digital, transformação digital, governo digital… o significado de digital vai muito além de simplesmente uma transição entre o físico e o virtual. Segundo o dicionário Michaelis, o adjetivo digital, no contexto informático, quer dizer "dispositivo que opera com valores binários exclusivamente" e é exatamente nessa característica binária que está o nosso "pulo do gato". Nesse contexto, o digital não fala e nem entende a linguagem política e jurídica, assim, não há espaço para nossos tão queridos advérbios de dúvida (possivelmente, talvez, aparentemente, supostamente, provavelmente…), nem tão pouco para as consagradas conjunções adversativas (mas, porém, contudo, todavia…). No digital, só há espaço para 0 ou 1;  sim ou não; certo ou errado.

Tudo isso nos leva à hipótese de que o tão discutido e esperado governo digital pode ser uma solução para, finalmente, desarticular o famigerado mecanismo tradicional. Na verdade, não é uma questão de curar o câncer do mecanismo, mas sim em mudar completamente as regras do jogo; um novo mecanismo. É exatamente isso que já está acontecendo aqui fora tendo o processo de transformação digital dos governos acelerado a partir de 2001.

Aqui na Europa, a Estônia é uma das pioneiras em transformação digital e seus resultados já são usados como benchmarking para todo mundo. O sucesso desse tipo de abordagem é tanto que já existe até um ranking mundial da ONU classificando os países que adotam os conceitos de governança digital. Dos 193 da lista, o Brasil ocupa atualmente a 44ª posição (2018). Uma performance muito ruim se considerarmos que somos a quarta maior população usuária de internet no mundo. :/

Apesar do desempenho ruim no ranking da ONU, tudo indica que estamos no caminho certo, afinal, temos até um secretário responsável pelo governo digital no Ministério da Economia, o senhor Luís Felipe Monteiro. Sua secretaria tem mais de 1000 projetos digitais que incluem o novo documento de identidade digital, uma plataforma online que visa centralizar todos os canais do governo federal e a digitalização do registro de empresas.

Durante um evento da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) na Bélgica no ano passado, o secretário Monteiro declarou que o Brasil havia inaugurado 320 novos serviços digitais somente em 2019. Ainda segundo ele, quase R$ 1 bilhão foi economizado ao reduzir gastos públicos e diminuir o custo Brasil (burocracia) para o cidadão. Em sintonia com os números apresentados pelo secretário, o Movimento Brasil Competitivo (MBC) estima que, neste ano, o Brasil poderá economizar R$ 1,7 bilhão com os projetos que estão sendo implementados. Dados como esses comprovam que qualquer investimento em governança eletrônica se justifica pela economia oriunda da transformação digital.

O processo de transformação é longo e penoso, mas talvez seja a única cura possível para a nossa doença degenerativa, que, diga-se de passagem, já está em metástase há bastante tempo. Certamente o projeto de digitalização do INSS está na lista dos casos apresentados por Monteiro, por exemplo, contudo, agora precisamos terminar e colocar para funcionar bem. Um grande desafio. Se alguém disser que processos desse tipo são rápidos e fáceis, estão tentando lhe enganar.

O mecanismo está em tudo. No flanelinha que recicla talão, na carteira falsificada pra pagar meia entrada, no suborno pro guarda aliviar a multa… E os ricos mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres."

— O Mecanismo

Finalmente, o tão cultuado jeitinho brasileiro de resolver problemas que, na minha opinião, é mais sinônimo de corrupção do que criatividade e está arraigado em nosso DNA cultural, está com os dias contatados.  Em um sistema binário (digital) é 0 ou 1; sim ou não; certo ou errado… O mais belo (e provavelmente mais trágico) de tudo isso é que os algoritmos* irão controlar o novo mecanismo e não mais "seres humanos". Nas eleições de 2018, escrevi um texto questionando como seria se nosso presidente fosse uma inteligência artificial, lembra? Pode estar mais próximo do que pensamos. Agora, fiquei curioso para saber se você disse "amém!" ou "Deus me livre".

Pelo histórico negativo que temos, muitos devem estar dizendo que essa tal transformação digital não vai conseguir mudar nada no Brasil. Eles, "os de Brasília", sempre dão um jeito para tudo, certo? Pode ser que até consigam dificultar e atrasar o processo, mas eu duvido que consigam evitar com que ele aconteça.

Acredite, na hora que tudo estiver lá no chamado mundial digital, tudo online, transparente e ao dispor de todos, será irreversível. 0 ou 1, lembra? Não haverá margens para o ladrão do colarinho branco que desvia a merenda das mesas de nossas escolas e nem mesmo para seu amigo que abre mão da nota fiscal por um descontinho camarada de três tostões. Já não importa mais se hoje somos o resultado desse mecanismo cruel de séculos e não conseguimos mudar. Será o novo mecanismo, o digital, que moldará a nova sociedade brasileira. Como dizia o meu mais novo amigo de infância: "O Brasil, definitivamente, não é para amadores". Que venha o governo digital então.

 Até a próxima semana.

*Aos céticos de plantão: eu sei que você já está pronto para argumentar que por trás das máquinas e algoritmos tem seres humanos e por trás deles ainda pode haver políticos, banqueiros etc. querendo manipular o novo mecanismo. Isso é tema para nossos próximos capítulos  😉

 

 

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.

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