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Aulas, cozinha e saúde mental: cidade usa Facebook para aguentar quarentena

Renato de Castro

02/06/2020 04h00

Engin Akyurt/ Pixabay

Tenho acompanhado de perto a crise do covid-19 no Brasil. A reabertura das atividades não essenciais em várias cidades, mesmo com os números ainda em crescimento, é uma medida bem arriscada. Pelo menos não foi assim que fizemos aqui na Itália. Hoje, eu gostaria de dividir com vocês um pouco das ações que a Itália está implementando para tentar mitigar os efeitos econômicos da crise.

Sendo o primeiro país na Europa a ser drasticamente afetado pelo vírus, após anos de estagnação tecnológica, a Itália tem se esforçado para ser a mudança. Em um cenário bem parecido com uma guerra mundial, estamos todos no mesmo barco, em risco e necessidade de ajuda, o que faz com que seja mais fácil e eficaz pedir auxílio àqueles que já nos conhecem e têm as mesmas raízes. Baseado nesses princípios, começamos aqui, na pequena cidade onde moro, uma ousada estratégia de economia KM 4.Zero, um novo paradigma que combina o superlocal (km zero) ao hipertecnológico (4.0) e que já discutimos em outro texto.

Localizada na área do Veneto e com um pouco mais de cinco mil habitantes, Rovolon está a 10 quilômetros de distância do epicentro do covid-19 na região, o que fez com que estejamos em quarentena desde o final de fevereiro (a medida só foi estendida para toda a Itália no dia 9 de março). Com literalmente todas as atividades econômicas fechadas e a população trancada em casa, juntos, como sociedade organizada, resolvemos assumir o controle de pequenas mudanças que teriam grande impacto.

Plataforma de engajamento comunitário

No dia 2 de março, começamos a primeira ação pós-coronavírus ao criar uma página no Facebook para o projeto Smart School Veneto, cujo foco, inicialmente, era minimizar o impacto do fechamento das escolas no aprendizado das crianças do município.

O que começou apenas como um projeto educacional, acabou por se tornar uma plataforma de conteúdo, principalmente de vídeos, relacionado à rotina da comunidade. Criada para um público de apenas cinco mil pessoas, as estatísticas da página mostram que o projeto foi muito além das fronteiras da pequena cidade:

Com um calendário de conteúdo fixo, a página passou a movimentar profissionais que tiveram que parar suas atividades durante a quarentena e diversos canais foram criados, como por exemplo:

Elly and Mr. Pig

Com foco no público infantil, todas as terças-feiras um vídeo com 20 minutos de duração incentiva o aprendizado da língua inglesa. Seguindo metodologias de escolas internacionais, onde as aulas são ministradas 100% em língua estrangeira, os vídeos da Elly and Mr. Pig têm atraído também adultos não só da Itália, mas da Espanha e até mesmo da Argentina, onde a comunidade italiana é bastante significativa. Os primeiros vídeos da série já somam mais de 20 mil visualizações.

Pílulas de Psicologia

Em 24 de março de 2020, a universidade de Harvard publicou o estudo Evaluating Covid-19 Public Health Messaging in Italy . Como principais resultados, o estudo apontou que as orientações do governo relacionadas à saúde pública foram assimiladas e seguidas pela população em geral. Exceto pelo cumprimento ligeiramente menor entre jovens adultos, todos os subgrupos estudados  –incluindo aqueles que não confiavam no governo ou na veracidade e intensidade dos fatos relacionados a crise– compreenderam as regras de distanciamento social. O estudo também alertou que um longo período de quarentena poderia gerar sérios efeitos negativos na saúde mental da população.

Em parceria com uma clínica de psicologia e bem-estar da região, todas as quartas-feiras um novo vídeo aborda questões ligadas à saúde mental e ao distanciamento social como vida em casal, emoções das crianças, individualismo e família.

Cozinha Faça Você Mesmo

A cada final de semana, um vídeo de uma receita preparada por um membro da comunidade é publicado, e o foco não é somente a culinária italiana. Com uma cultura regional (veneta) muito forte, a percepção da diversidade cultural como fator positivo para a comunidade ainda é baixa e, por isso, temos incentivado que pessoas de outras culturas também participem. Já tivemos receitas chinesas, peruanas, eritreias, espanholas e uma edição especial de uma receita de imigrantes no Brasil que foi gravada em língua talian (também conhecido como o vêneto brasileiro) em Cotiporã, no Rio do Grande do Sul. No final de cada vídeo, todos são "desafiados" a replicar as receitas em suas casas e a compartilhar fotos de seus pratos.

Mercado KM Zero

Agora chegou a vez dos empresários mostrarem seus negócios.

Sem o costume de utilizar ferramentas digitais para se comunicarem com seus clientes, a página passou a ser uma oportunidade não só para informar a comunidade que seus produtos estavam sendo entregues em domicílio como, também, uma plataforma para explorar esse novo método de comunicação.

A experiência mais interessante foi a de uma padaria, que orientamos a fazer um tutorial de como produzir um pãozinho francês em casa. Depois de um processo longo e cansativo de três horas que resulta em um pão que não fica nem de perto igual ao da padaria, as pessoas passaram a valorizar muito mais o simples pãozinho que custa menos de R$ 1. Mais que um incremento nas vendas, houve certamente um grande aumento na percepção da relevância dessa empresa para a sociedade local.

Você acha que as redes sociais podem ajudar também na retomada econômica no Brasil? Conhece algum caso de sucesso na sua cidade? Deixe seus comentários abaixo e vamos ajudar o Brasil neste novo desafio nacional. Nós já estamos escrevendo o primeiro capítulo da nova história aqui na Itália. Nos vemos no próximo texto.

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.