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Como funciona o sistema de segurança de Moscou que usa o "Facebook russo"

Renato de Castro

23/06/2020 04h00

Moscou lançou um dos maiores sistemas de reconhecimento facial do mundo (f9photos)

A cidade de Moscou conta com aproximadamente 170 mil câmeras de monitoramento espalhadas pela cidade que acompanham cidadãos e turistas 24 horas por dia. O sistema tem sido utilizado para identificar infrações e crimes, bem como monitorar atividades realizadas pela prefeitura. O projeto vem sendo gerenciado pelo governo local nos últimos anos em parceria com a iniciativa privada e cidadãos, reduzindo a necessidade de investimento do dinheiro público. Já foram investidos mais de US$ 250 milhões ( R$1,3 bilhão) ao longo dos últimos anos.

Nos últimos cinco anos, o governo de Moscou intensificou os esforços para implantar câmeras ao redor da cidade que permitem um controle de atividades em áreas públicas 24 horas por dia, sete dias por semana. As câmeras foram instaladas em diversos lugares, de entrada de edifícios ao sistema de metrô, que auxiliam a administração pública a verificar se o lixo é coletado, se algum veículo ultrapassa o limite de velocidade, se a neve foi retirada de vias públicas ou se algum anúncio ilegal está nas ruas da cidade. Além disso, o município diz que os índices de criminalidade caíram drasticamente após a implantação do sistema. De acordo com o departamento de informação de Moscou, 75 mil infrações são flagradas por dia o que, geralmente, resulta em multas.

A longo prazo, Moscou planeja usar a tecnologia para registrar evidências e investigar crimes, além de coletar informações durante as eleições. Para isso, o município está trabalhando para tornar o sistema mais inteligente de modo que as imagens de vídeo possam ser analisadas mais profundamente e o próprio sistema passe a emitir as multas. 

Dmitry Golovin, que lidera a divisão de vigilância por vídeo do Departamento de TI de Moscou, revelou durante o fórum Security Technologies que das 170 mil câmeras, boa parte já está conectada a um sistema de reconhecimento facial que compara automaticamente imagens ao vivo aos bancos de dados de pessoas procuradas pela polícia, seja por crimes que já aconteceram ou suspeitos de atividades terroristas. A tecnologia, que também está integrada à versão russa do Facebook, VKontakte, e o banco de dados de passaportes, tem sido usada há alguns anos, mas foi só recentemente conectada aos dados da polícia, o que colaborou para que, nos dois primeiros meses de funcionamento, seis procurados por crimes graves fossem presos.

O "Big Brother" russo tem preocupado habitantes e turistas em relação à sua privacidade. Segundo autoridades do governo, as câmeras são utilizadas somente por serviços de segurança para prenderem criminosos e é possível vê-las claramente, mas não há qualquer sinal indicando a presença delas. 

A Rússia tem trabalhado em conjunto com a China para desenvolver o seu sistema de vídeo vigilância urbana em Moscou, tendo a maioria das câmeras instaladas na entrada de edifícios e locais públicos. A população também tem a liberdade de conectar as suas próprias câmeras ao sistema e todas as informações capturadas são enviadas para o Centro Geral de Armazenamento e Processamento de Dados. 

O projeto de introdução de câmeras inteligentes foi lançado na capital russa em 2017, quando mais de três mil câmeras foram conectadas ao sistema de reconhecimento facial. Em 2018, quando o país sediou a Copa do Mundo da Fifa, a iniciativa se tornou de conhecimento público quando a polícia prendeu durante o evento mais de 180 pessoas que estavam foragidas.

Atualmente, entre a polícia e agências de segurança federais e regionais, mais de 16 mil usuários têm acesso ao sistema de monitoramento com níveis de acesso diferentes e todas as interações com o sistema ficam registradas. A polícia, por exemplo, deve solicitar informações específicas, de acordo com a lei atual, e as agências federais só podem acessar as câmeras nas áreas e rotas pelas quais são responsáveis.

Vários projetos relacionados a novas tecnologias aplicadas à segurança pública vêm ganhando destaque no Brasil. O carnaval de Salvador tem servido de palco para projetos pilotos em reconhecimento facial que ganharam destaque nacional. A possibilidade de integrar as câmeras privadas já existentes na cidade –como as do comércio, indústria, bares, restaurantes e condomínios– pode ser uma grande oportunidade para potencializar o aparato de segurança sem a necessidade de investimentos por parte do governo.

Tecnologias relacionadas à inteligência artificial e reconhecimento facial estão causando polêmica em todo mundo. Países com maiores índices de criminalidade, como o Brasil, tendem a serem mais flexíveis a aceitação desta troca de privacidade por segurança.

Você estaria disposto a viver nesse "Big Brother" urbano?  Deixem seus comentários e vamos aprofundar essa discussão.  Nos vemos no próximo texto.  

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.