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Exemplo mundial: como uma cidade usou bibliotecas para reduzir a violência

Renato de Castro

04/08/2020 04h00

Medellín: integrando educação, lazer, cultura e mobilidade para diminuir as desigualdades sociais na cidade. (Divulgação/ Ciudad de Medellín)

Como bom carioca que sou, eu venho convivendo desde que nasci com a violência. Não precisa nem olhar as estatísticas nacionais mais recentes para entender a situação de guerra que o Rio vive (desde sempre). O complexo relevo da cidade que desenha os cenários paradisíacos da cidade maravilhosa é o mesmo que acaba agravando a situação socioeconômica, com a formação das comunidades mais carentes nos morros e a grande dificuldade da ação do governo, tanto do ponto de vista social quanto da segurança pública. Resumindo: a violência no Rio, com todo o poder do tráfico de drogas e a falta de um interesse político legitimo não tem solução, certo? Bem, pode não ser bem assim!

Um projeto ousado na Colômbia conseguiu resolver um problema semelhante em uma cidade que já foi considerada uma das mais violentas do mundo e que tinha um conhecido cartel de drogas.  Segunda maior cidade da Colômbia e capital da região de Antioquia, Medellín abriga dois milhões de habitantes (3,7 milhões se considerada a área metropolitana).

No estudo "Global Metro Monitor" conduzido pelo centro de pesquisa americano Brookings em 2014, a cidade foi a que teve melhor desempenho na América Latina na combinação de duas variáveis: crescimento do PIB per capita e geração de emprego. Responsável por aproximadamente 10% do PIB da Colômbia, o município tem um PIB per capita de US$ 19.625.

A série Narcos, do Netflix, que retrata a história do traficante Pablo Escobar lembra os momentos de horror que a cidade de Medellín viveu na década de 90, quando era comum encontrar cadáveres no meio da rua. Com terreno irregular por ficar no meio da Cordilheira dos Andes –o que lembra os morros do Rio de Janeiro que comentamos anteriormente–, o município chegou a ser considerado o mais violento do mundo ao atingir uma taxa de 380 homicídios por 100 mil habitantes. O medo de sair às ruas, sequestros, extorsões e quadrilhas de todos os tamanhos começou a mudar há duas décadas, quando entrou em ação o que ficou conhecido como Modelo Medellín.

Após um mapeamento da cidade, o governo constatou que onde faltava presença do Estado, sobrava violência. Assim, resolveu mapear pontos estratégicos e fazer ali tudo o que fosse possível em prol da comunidade. Para trazer a população a bordo, onde iria ser construída uma biblioteca, por exemplo, anos antes iniciava-se uma feira de livros no local.

Com essa ideia em mente, o município passou a construir os Parques Biblioteca –complexos urbanos de arquitetura moderna que têm como edificação central uma biblioteca com equipamentos tecnológicos modernos, amplos espaços públicos e áreas verdes. Inicialmente, entre 2005 e 2008 foram construídas cinco unidades. A grande demanda fez com que o plano fosse estendido para mais cinco outros centros que foram construídos entre 2009 e 2011, passando a beneficiar cerca de 784 mil pessoas.

O projeto de parques-bibliotecas de Medellín deu tão certo que os índices de violência caíram drasticamente e o município passou a ser reconhecido como cidade-modelo.

Em um concurso realizado pelo The Wall Street Journal e pelo banco Citibank, em parceria com o Urban Land Institute, Medellín foi eleita a cidade do ano em 2013 devido às transformações sociais que realizou.

Foi exatamente essa forte atuação na área social, quebrando as barreiras sociais e aproximando os cidadãos, que hoje reconhecemos como uma das principais políticas publicas para o enfrentamento e resolução  da situação.

A Biblioteca Espanha faz parte da série de projetos urbanos para a transformação da cidade e sua construção quis refletir a organização e extensão do programa. Visível a partir de boa parte do município, tornou-se símbolo da nova Medellín. A ideia foi ter três diferentes grupos que se integram por meio de uma plataforma mais baixa, o que permite maior flexibilidade e autonomia de uso, fazendo com que haja mais participação da comunidade.

Além disso, o conceito quis transportar moradores da pobreza vivenciada no exterior para um ambiente acolhedor, com luz natural e que instigue os estudos e palestras. As pequenas janelas sugerem a relação com o mundo exterior e deixam a luminosidade entrar por cima da estrutura. Muito bacana mesmo esse projeto.

Em 2019 tivemos a publicação de uma nova ISO, a 37122, com os indicadores para cidades inteligentes, diretamente relacionados ao tema cidades e comunidades sustentáveis. Projetos de bibliotecas relacionados a cultura e educação são tão importantes que ganharam dois indicadores específicos na ISO 37122:2019:

  • 17.3 Número de livros disponíveis em bibliotecas públicas e livros eletrônicos por 100 000 habitantes.
  • 17.4 Porcentagem da população da cidade que é usuária ativa de bibliotecas públicas.

A abordagem da importância da educação e preservação da cultura também tem um destaque especial na Agenda 2030 das Nações Unidas, ilustrado no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável:

  • ODS 4 – Garantir educação inclusiva e igualitária de qualidade e promover oportunidades de aprendizado vitalícias para todos e;
  • ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis.

Investimentos na promoção da cultura nas cidades brasileiras podem representar não somente uma agenda positiva para nossos governos municipais, mas principalmente uma forte fonte de capitação de investimentos para projetos de cunho socioeconômico.

Como ilustrado acima no caso de Medellín, projetos relacionados a cultura, quando planejados de forma estratégica, podem ajudar a reduzir as diferenças sociais na cidade, engajar cidadãos e principalmente promover uma mudança radical na segurança pública, deixando um forte legado com capacidade de perdurar por décadas.

A sua cidade está investindo na cultura? Compartilhe conosco os casos de sucesso do seu município e vamos juntos ajudar a construir um Brasil mais sustentável, seguro e resiliente. Nos vemos no próximo texto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.