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Imagine monitorar a saúde das árvores pela internet? É o que Melbourne faz

Renato de Castro

15/08/2020 04h00

Projeto de floresta urbana visa tornar Melbourne mais resiliente e saudável (Prefeitura de Melbourne)

A cidade de Melbourne tem enfrentado desafios significativos devido às mudanças climáticas, crescimento populacional e aquecimento urbano. Para combater tais desafios, a cidade plantou milhares de árvores, criando um ecossistema mais sustentável que colabora com a administração do intenso calor durante o verão. A iniciativa veio do governo local de Melbourne, apoiada pelo governo federal e governo estadual de Victoria, e custou para os cofres públicos algo em torno de AUD 30 milhões (aproximadamente R$ 118 milhões).

Para entender o projeto é importante conhecer bem o histórico deste problema na Austrália. De 1997 a 2009, Melbourne, juntamente com várias cidades australianas, sofreu a seca do milênio, o que demandou que a cidade tomasse medidas para diminuir os efeitos de temperaturas mais altas e eventos climáticos imprevisíveis.

Uma das respostas imediatas à seca foi controlar o uso da água e a cidade reduziu a demanda per capita em quase 50%. Em busca de uma estratégia de longo prazo para mitigar os efeitos do calor extremo e ao notar que muitas árvores do município estavam morrendo, inspirada por iniciativas americanas como o "Urban Forest Project", de Nova York, a prefeitura de Melbourne decidiu criar uma estratégia para uma floresta urbana, afinal, além dos benefícios claros que ela traz, a exposição à natureza também reduz o estresse e a incidência de doenças mentais, bem como aumenta as oportunidades para se fortalecer os laços da comunidade em espaços onde as pessoas podem se reunir, conectar e recriar.

A estratégia, que tem previsão de implementação por 20 anos, quando a cidade deve se tornar mais quente, seca e sujeita a inundação mais intensa, visa orientar a transição da paisagem atual da cidade para uma que seja resiliente, saudável, diversa e que atenda às necessidades da comunidade.

Desde 2012, a administração municipal plantou mais de 12 mil árvores em estacionamentos e estradas que não são mais utilizados. Além das iniciativas governamentais, os moradores também são incentivados a plantarem árvores em suas residências e as ações conjuntas devem colaborar para que as temperaturas no verão sejam reduzidas em até 4ºC.

Atualmente, a cidade de Melbourne conta com mais de 70 mil árvores, todas mapeadas no Urban Forest Visual, um mapa virtual interativo da saúde de cada árvore gerenciada pela cidade que permite que os cidadãos vejam facilmente a expectativa de vida de cada uma delas. Muito bacana, não acha?

O sucesso da floresta urbana depende de vários fatores, entre eles, a seleção inteligente de espécies que colaborem com a melhora da retenção da umidade do solo, redução dos fluxos de águas pluviais, melhora da qualidade e a reutilização da água e aumento da cobertura de sombra.

Para alcançar a visão de se ter uma floresta urbana saudável, resiliente e diversificada que contribua para a saúde e o bem-estar da comunidade, o projeto foi dividido em seis estratégias:

  • Aumento da área verde: de 22% para 40% até 2040.
  • Aumento da diversidade: a composição será de não mais que 5% de qualquer tipo de árvore, 10% de qualquer espécie e 20% de qualquer família.
  • Melhora da saúde da vegetação: 90% das árvores da cidade deverão estar saudáveis até 2040.
  • Melhorar a umidade do solo e a qualidade da água: a umidade do solo será mantida em níveis que proporcionem um crescimento saudável da vegetação.
  • Melhorar a ecologia urbana: proteger e melhorar a biodiversidade de modo a contribuir com um ecossistema saudável.
  • Informar e consultar a comunidade: a comunidade terá uma compreensão mais ampla da importância da floresta urbana, aumentará sua conexão com ela e se envolverá no processo de evolução.

A prefeitura disponibiliza um site onde todas as 70.000 árvores podem ser visualizadas em detalhes (Reprodução)

No Urban Forest Visual, cada espécie é identificada com um ícone diferente e a sua saúde é informada por meio de cinco cores que indicam os status saudável, em risco, em declínio, morrendo ou saúde não conhecida. Assim, é fácil identificar a diferença ou semelhança em um grupo de ícones no mapa e, em combinação com o esquema de cores, rapidamente determinar quais áreas da floresta urbana podem estar em risco e se esse risco pertence a um certo tipo de árvore.

Cidades como Frankfurt, na Alemanha, mostram uma tendência de investimentos seguirem iniciativas sustentáveis. Apesar de ser totalmente urbanizada e um dos maiores centros financeiros do mundo, Frankfurt é a oitava cidade mais arborizada do mundo e tem investido massivamente em outras iniciativas verdes, como a redução do consumo energético e emissão de carbono.

No Brasil, iniciativas municipais como a de Belo Horizonte têm feito o mapeamento da flora local, contudo, carece de  integração entre os dados, governo e munícipes.

A sua cidade tem algum projeto bacana relacionado a gestão ambiental e valorização do verde?

Esse é um tema que necessariamente deve estar presente nos debates políticos desse ano. Então, se seu candidato a prefeito não está alinhado com a sustentabilidade ambiental, é melhor você dar a dica!

Deixe seus comentários aqui abaixo e vamos ampliar essa discussão. Nos vemos na próxima semana.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.