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Hidrômetro inteligente evita perda de água, mas pode depender de 5G no país

Renato de Castro

28/08/2020 04h00

Henryk Niestrój/ Pixabay

Temos vivido e discutido ao longo de quase um século o problema da distribuição da água potável no Brasil. Obras mega-milionárias e transposições de rios, programas de aberturas de poços artesianos e até a dessalinização da água do mar entrou na discussão. Tudo isso faz sentido em um país que possui mais de 12% das reservas de água doce superficial do mundo e ainda sofre com o problema da seca.

Mas não podemos parar por aí. No universo das cidades inteligentes, as tecnologias de IoT (internet das coisas) aplicadas a gestão de águas têm evoluído muito rapidamente. Os medidores inteligentes já são uma realidade e estão cada vez mais acessíveis. 

Medidores ou hidrômetros inteligentes são dispositivos conectados à internet que medem o consumo de água remotamente em intervalos de tempo pré-definidos. Enquanto os aparelhos tradicionais consideram apenas o consumo total, os inteligentes registram quando e quanto de água é consumida, o que permite que empresas e consumidores avaliem a melhor forma de economizar o recurso. E principalmente, ajudam a detectar os vazamentos de água.

Com a segunda maior população do mundo, estima-se que a Índia se torne um país com escassez moderada de água até 2050. De acordo com um relatório do World Resources Institute, mais de 80% da água subterrânea disponível já foi retirada e cerca de 70% dela foi utilizada para agricultura. A ONU estima que a demanda por água no país atingirá o dobro da oferta disponível até 2030, o que colocará milhões de vidas em risco.

Na sexta maior cidade da Índia, Chennai, os quatro reservatórios que abastecem a região estão quase secos. Para conseguir água, os moradores têm que aguardar a chegada de caminhões-tanque do governo e enfrentar a fila. Utensílios domésticos são lavados com a mesma água para que se economize água limpa para cozinhar alimentos.

Para tentar enfrentar essa crise, algumas cidades passaram a instalar hidrômetros inteligentes. Em Bangalore, o novo sistema permitiu que os moradores passassem a ter uma visão clara do seu consumo em tempo real. Medidas como a substituição de descargas e otimização de uso de máquinas de lavar roupa e louça, por exemplo, fizeram com que as oito mil residências que tinham os novos medidores instalados até setembro de 2018 reduzissem o consumo de água em 30%.

Na liderança na batalha contra o desperdício de água está Nova Déli que, ao substituir 50 mil hidrômetros tradicionais por inteligentes, se tornou o primeiro e único município da Índia a ter esse tipo de dispositivo instalado em todas as edificações, o que deverá gerar uma economia de mais de US$ 1 milhão.

Utilizados principalmente para medir o consumo de água em edifícios residenciais e comerciais quando fornecido a partir de um sistema público de abastecimento de água, os medidores inteligentes fornecem informações em tempo real à empresa de água sobre vazamentos e irregularidades, o que permite que equipes de manutenção corrijam as falhas rapidamente, diminuindo o desperdício e minimizando danos causados por possíveis inundações.

Para um hidrômetro ser considerado inteligente, ele deve estar conectado à uma rede de dados. Contudo, países emergentes como o Brasil muitas vezes carecem de infraestrutura robusta que possa suportar esse tipo de dispositivo. Uma rede de longa distância de longo alcance, ou LoRa, pode ser a solução para esse problema.

Projetada especificamente para aparelhos IoT como medidores inteligentes, a LoRa é uma tecnologia de rádio frequência similar ao wi-fi que permite comunicação a longas distâncias com baixo consumo de energia. Dependendo das condições de instalação, o alcance da rede varia de três quilômetros em áreas urbanas até 12 quilômetros ou mais em áreas rurais.

Outra alternativa é o uso do 5G, que tem baixa latência e tempo de resposta dez vezes menor do que a rede 4G (1 milissegundo comparado a 10 milissegundos hoje). Com previsão de chegada no Brasil em 2022 (se tudo der certo), a tecnologia é vista como o primeiro passo para o avanço do mercado de IoT, que incluí os medidores inteligentes.

A internet das coisas irá revolucionar a forma com a qual gerenciamos a venda, distribuição e controle de serviços básicos como água e luz. Os investimentos no caso da gestão de águas  se pagam principalmente em função de um maior controle sobre desperdício e roubo.

Mesmo em cidades com alta densidade demográfica com problemas de desigualdade social como Nova Déli e Bangalore, o sistema de medidores inteligentes tem se mostrado vantajoso. Para os municípios brasileiros, a oportunidade está na possibilidade do uso de ferramentas como as Parcerias Público Privadas, as PPPs, para fomentar investimentos nesse setor. Esse modelo de financiamento através das PPPs, que já vem se mostrando muito interessante no setor da iluminação pública, deverá crescer bastante nos próximos anos no Brasil.

De acordo com o relatório Desenvolvimento Mundial da Água da ONU, em todo mundo, cerca de 30% da água captada é perdida em vazamentos. Mas, no Brasil esse número é ainda pior.

Um estudo mostra que no Brasil o desperdício de água em função de vazamentos, do nosso famoso "gato" (ligações ilegais para furto de água) e de erros de leitura chega a quase 40%.

Isso significa na prática que de cada 100 litros de água capitadas na natureza, através dos diversos projetos milionários que pagamos com o dinheiro dos nossos impostos, quase 40 litros simplesmente não chegam a ninguém. São praticamente jogados fora! Para você ter uma ideia melhor da dimensão desses números, isso equivale à 7.100 piscinas olímpicas de águas perdidas por dia, com um prejuízo superior à R$ 12 bilhões.

Fazendo uma continha rápida, segundo a Agência Brasil, os custos do projeto de transposição do rio São Francisco em 2019 somavam R$ 1,4 bilhão. Com base na estatística acima, R$ 560 milhões (40%) foram em vão simplesmente pela nossa incapacidade de gerenciar a distribuição da água capitada…

Estamos oficialmente já em pré-campanha para as eleições municipais no Brasil. Pergunte ao seu candidato a prefeito e a vereador o que eles acham sobre o tema.

Chegou a hora de mudarmos aquele discurso populista e simplório quanto a gestão das águas urbanas que é bastante popular entre os políticos para uma discussão realmente séria sobre a gestão dos nossos recursos naturais, você não acha? Nos vemos no próximo texto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.