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A batalha do Incrível Hulk de brócolis X o Iron Man de tomates frescos

Renato de Castro

08/10/2018 04h00

Incrível Hulk brócolis . Imagem: Denny Kurien

Semana passada estive em Toulouse, na França, participando de um dos mais importantes e aguardados eventos de tecnologia da Europa: o EmTech 2018. Organizado pela renomada universidade norte-americana de tecnologia MIT, o evento acontece anualmente em quatro edições: Europa, Ásia, América do Sul, e claro, nos Estados Unidos. E é exatamente nesses eventos que os diversos pesquisadores da instituição e convidados dos centros de pesquisas parceiros divulgam os resultados de seus estudos e seus novos produtos conceituais.

Entre as diversas tecnologias apresentadas, uma que chamou bastante a atenção da audiência foi a impressora 3D de uma empresa de Barcelona chamada NaturalMachines. A StartUp espanhola, que já está no seu sexto ano de existência, apresentou uma impressora 3D para alimentos que eles batizaram de Foodini. Isso mesmo, impressão de comida! O interessante na apresentação do pitch do produto foi exatamente a tentativa da cofundadora da empresa, a americana Lynette Kucsma, de desconstruir a primeira impressão negativa do conceito de impressão 3D de comida.

Você experimentaria um alimento que foi “produzido” em uma impressora? Acho que a primeira resposta da maioria das pessoas seria não. Mas se pararmos para pensar, a maioria dos alimentos processados que encontramos à venda nos supermercados foram produzidos seguindo processos bem parecidos. Pense na fabricação de um biscoito, de uma barra de cereal ou de um macarrão. Todos esses produtos iniciam pela etapa de mistura dos ingredientes e logo depois passam por um processo de extrusão, na qual são moldados por pressão, para depois serem assados ou pré-cozidos e por fim embalados.

A impressora neste caso atua exatamente no processo de moldar ingredientes frescos usando cápsulas recarregáveis, que seriam como os cartuchos de tinta de uma impressora normal. Para ficar mais fácil de entender, sabe aquele processo para fazer biscoito caseiro ou confeitar bolos no qual sua avó usava aqueles sacos triangulares com diversos tipo de bicos diferentes? Mais ou menos por aí. Fiz um vídeo para vocês durante um bate-papo com Enric Masdeu, o engenheiro de software responsável técnico do projeto, antes deles subirem no palco. Olha que legal:

A máquina é relativamente bem simples. Ela trabalha conectada à internet. São 5 cápsulas de impressão que carregam diversos tipos de alimentos. Na demonstração, eles estavam usando duas iguarias muito apreciadas por aqui na Europa, a mexicana Guacamole (uma espécie de purê de abacate) e a árabe Húmus (uma pasta de grão-de-bico). Mas segundo eles, é possível trabalhar com ingredientes de várias texturas, não necessariamente em forma pastosa. Uma vez carregadas as cápsulas, é só escolher o desenho a ser impresso e pronto. A empresa conta com uma loja de receitas onde se pode encontrar vários designs já elaborados. O módulo de impressão e a escolha do desenho podem ser acessados pelo app ou via o painel touchscreen do equipamento. Igualzinho a sua impressora jato de tinta de casa.

Mas você deve estar se perguntando então: existe mercado para isso? Pois é, a mesma pergunta que eu fiz a mim mesmo, um pouco incrédulo, quando ouvi sobre o projeto. E a resposta é sim! Tem, e muito! Depois de desmistificar o conceito da impressão de comida, a Lynette começou a explicar a motivação da sua ideia. E faz muito sentido. O primeiro mercado que eles já estão atuando é o de restaurantes gourmets. Aqueles que têm chefes com as famosas estrelas Michelin. A vantagem para os chefes é a possibilidade da personalização de pratos usando a criatividade mais do que nunca, uma vez que a impressora consegue fazer designs complexos que seriam quase impossíveis de reproduzir à mão livre e com uma grande produtividade.

Pratos assinados por grandes chefes usando impressão 3D. Agora deu vontade de provar, né? Foto: Naturalmachines

Mas não acaba aí. O principal argumento do produto é que nos alimentamos usando vários sentidos e não somente o olfato ou paladar. Na verdade, a visão tem um papel muito importante no processo de alimentação. Ela é o primeiro sentido que usamos antes de comer. Pensando nisso, a empresa está trabalhando em projetos especiais para hospitais. Pacientes com restrições alimentares acabam tendo muito pouca opção nos tipos de alimentos que podem comer. Então, na maioria das vezes, as refeições são pastosas e com poucas variações. A perda de apetite desses pacientes acaba dificultando sua reabilitação mais rápida. A ideia de usar as impressoras para dar uma “nova cara” à mundialmente temida “comida de hospital” é brilhante. E o melhor é que com o equipamento é possível customizar à vontade a apresentação das refeições, sem necessidade de chefs para isso, de forma automatizada e sistemática. Muito bacana, não acha?

O conceito funciona também muito bem com as crianças, que acabam não comendo certos tipos de alimentos, principalmente as verduras, por conta da percepção negativa que têm deles. Imagine então a gamificação da comida — um purê de abóbora ou cenoura em forma de Pepa Pig ou uma empolgante batalha do Incrível Hulk, de brócolis processado, contra o Homem de Ferro, de tomates frescos picadinhos! Sem dúvida, seria um grande aliado na guerra diária que travamos com nossos filhos por uma alimentação mais saudável. E nem demora muito: uma escultura mais elaborada de chocolate, por exemplo, leva em torno de 20 minutos para ficar pronta. Se for somente um prato decorado de guacamole ou húmus, como vimos no vídeo, ou o nosso Hulk de brócolis, em 5 minutos você já tem a impressão finalizada.

A empresa agora está trabalhando em uma versão de impressora que possa também cozinhar os alimentos depois da impressão, o que vai dar ainda mais utilidade e versatilidade ao equipamento. O valor do produto é ainda um pouco salgado para o uso doméstico, em torno de 4.000 dólares (16.000 reais). Mas a ideia deles é que muito em breve já esteja nas prateleiras das lojas com um preço bem mais simpático a todos os bolsos. Podemos dizer então que ‘num futuro não muito longínquo’ iremos encontrar também impressoras 3D na lista de eletrodomésticos para cozinha. No melhor estilo casa inteligente do futuro, igualzinha à fantástica casa dos Jetsons, lembra?

O que você acha da ideia? Compraria uma para sua casa? Nos vemos na próxima semana!

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh, etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.

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