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Buscando uma carreira em TI? Cuidado para não entrar em uma furada!

Renato de Castro

2021-01-20T19:04:00

21/01/2019 04h00

 

Será que vale a pena investir em uma carreira como programador?  Imagem: business.unsw.edu.au

Fiquei tão feliz e motivado com o nível de engajamento do meu último texto que resolvi aprofundar a discussão um pouco mais. Nas minhas análises sobre as tecnologias que provavelmente se tornarão obsoletas no futuro, a previsão mais polêmica é, sem dúvida, a do fim dos notebooks. Muitos, mas muitos, mesmo, acham que não será bem assim, e os mais de 130 comentários que tivemos mostraram isso. Foi o texto com a maior participação de vocês desde o início do Blog, thanks!

Na minha opinião, o fator decisivo aqui será a evolução dos algoritmos de inteligência artificial. O argumento principal que reitero é que da forma como a tecnologia caminha, em breve não estaremos mais interagindo com "nada" e nem "ninguém" via teclado. As interfaces mais usadas serão, provavelmente, a voz, em um primeiro momento, e a telepatia, ou como os cientistas chamam em inglês: intention. Até aqui, sabemos que independentemente de serem implementadas de forma mais rápida ou lenta nos países em desenvolvimento, isso é só uma questão de tempo, concorda?

Neste contexto, da mesma forma que o rádio e a televisão perderam os seus charmosos botões para volume e troca de canais, provavelmente teclados, mouses e outros periféricos também não farão tanto sentido (pelo menos para os usuários comuns). Não precisa muito então para imaginar como um supercomputador pessoal, com processador quântico de alta prestação, no futuro vai se parecer… com um tablet, talvez?

Aqui começamos a abordar a parte que interessa aos colegas e futuros profissionais de TI, particularmente aos programadores de software. Nossas mentes brilhantes, espalhadas pelos "Vales" mundo afora, que desenvolvem os complexos e temidos algoritmos. Eles sim precisam, e muito, de teclados, concordo plenamente. Mas a pergunta é: precisaremos deles (os programadores)? Será que uma inteligência artificial não será capaz de desenvolver algoritmos (softwares) de forma mais rápida, clean e muito mais precisa do que nossos gênios humanos?

A primeira consideração a ser feita é quanto ao conceito que envolve o trabalho de programação, que, tirando o conhecimento da linguagem de programação, tem o seu maior mérito na criatividade e intuição humana.  Segundo o professor Noah Harari, neurocientistas descobriram recentemente que muitas de nossas escolhas, preferências e emoções não são o resultado de faculdades humanas "mágicas", como o livre arbítrio. Em vez disso, a cognição humana vem da capacidade do nosso cérebro de calcular probabilidades diferentes, no espaço de uma fração de segundo.

Esta hipótese nos leva a uma questão preocupante: a inteligência artificial acabará por superar as pessoas em profissões que exigem "intuição humana", como advogados, analistas do sistema bancário ou programadores de software? É altamente provável, principalmente agora que já sabemos que o que parecia ser a nossa grande vantagem competitiva contra as máquinas – a intuição humana – trata-se, na verdade, apenas das nossas redes neurais reconhecendo padrões familiares e fazendo cálculos rápidos sobre probabilidades. Adicione a velocidade de processamento da futura computação quântica a esta equação e você pode prever o resultado, certo?

Pesquisadores da Microsoft e da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, por exemplo, já desenvolveram uma Inteligência Artificial que é capaz de escrever códigos. O IA é chamado DeepCoder e tem a capacidade de aprender, e de codificar para certas funções, escolhendo a linguagem mais adequada para cada aplicação específica. O algoritmo tenta fazer o melhor arranjo possível de programação, visando a otimizar e melhorar sua eficiência de programação ao longo do tempo (deep learning). Isso significa que a IA não "rouba" ou "copia-cola" o código de um software existente ou pesquisa na Internet por soluções. Ela os cria! Os autores do DeepCoder esperam que ele participe de competições de programação no futuro próximo. Alguém topa?

Em 2016, a Microsoft lançou um chatbot para o Twitter chamado Tay. Ela (Tay) foi projetada para imitar os padrões de linguagem de uma garota americana de 19 anos e aprender interagindo com usuários humanos da rede social. Depois de apenas 16 horas após seu lançamento, a Microsoft decidiu cancelar o projeto porque Tay começou a postar tweets ofensivos, baseado no que ela aprendeu sozinha pesquisando on-line.

 

Algo do tipo: "Os judeus fizeram o (atentado de) 11 de setembro. Gás neles – guerra racial já!". Antissemitismo e discriminação racial foram os traços mais marcantes da personalidade da Tay depois de 16 horas aprendendo na internet e interagindo com usuários em tempo real.

Segundo o cientista político americano Darren West, autor do livro The Future of Work: Robots, AI, and Automation (O futuro do trabalho: Robôs, Inteligência Artificial e Automação), lançado em 2018, há boas razões para supor que, no século XXI, o impacto da nova tecnologia no emprego humano será muito mais intenso e destrutivo do que o visto na Revolução Industrial anterior.

Apenas considere o fato de que nós, seres humanos, dispomos de dois tipos de habilidades – as cognitivas e as físicas. Na Revolução Industrial anterior, experimentamos a competição com as máquinas basicamente no domínio das habilidades puramente físicas. Nossas habilidades cognitivas, entretanto, permaneceram muito superiores às das máquinas. Portanto, mesmo quando a automação ocorria em trabalhos manuais dentro da indústria e da agricultura, surgiam simultaneamente novos empregos que exigiam o tipo de habilidades cognitivas específicas dos seres humanos – como análise, comunicação, aprendizado, programação (!), entre outras.

Embora a maioria dos especialistas concorde que a Quarta Revolução Industrial mudará quase todas as linhas de trabalho no século XXI, não podemos prever como será essa mudança. É verdade que a última Revolução Industrial, ocorrida no século XIX, acabou criando mais de um novo emprego para cada um que se tornou obsoleto. Contudo, agora que as máquinas estão se tornando inteligentes o suficiente para competir por empregos baseados em cognição, como será? Essa é a pergunta do milhão!

Que tal ampliarmos ao máximo essa discussão? Envie esse texto para todos os seus amigos que estudam ou trabalham com TI no Brasil e vamos tentar levantar o máximo possível de opiniões sobre esse assunto tão polêmico e importante. Prometo que responderei a todos os comentários, como sempre. Não esqueça também de deixar a sua opinião pessoal sobre o tema aqui embaixo. Nos vemos no próximo texto!

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh, etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.