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Prefeita promete menos espaço para carros para se reeleger. Votaria nela?

Renato de Castro

11/02/2020 04h00

Prefeita de Paris planeja reduzir o número de vagas de 83.500 para 23.500, uma redução de 72% no espaço destinado a carros

Uma coisa que sempre fez parte da minha geração é o carro. Além de facilitar o deslocamento, ele também foi sinônimo de status – e ainda é hoje quando se trata de algumas marcas. Lembra que ano passado eu já havia te dado a dica? Com o passar do tempo, ficou mais fácil comprarmos um veículo motorizado, o que fez com que na capital paulista, por exemplo, existam cerca de 7,4 veículos para cada 10 habitantes. Enquanto isso, em Londres, na Inglaterra, essa relação cai: há três veículos para cada dez habitantes. É isso mesmo, muito menos de um carro por pessoa. Inacreditável, não é? Sim, Londres tem o metrô mais antigo do mundo, aberto em 1863, e o transporte público, apesar de parecer deficitário para os locais, é um sonho para nós. Mas eu acho que o que acontece em Londres, e passa a acontecer em outras cidades no mundo, vai além dessas questões.

Há uma mudança de mentalidade da população em todo o mundo de modo que questões ambientais passam a ter mais ênfase e, também, há um entendimento de que a vida deve ser melhor aproveitada do que gastando três horas por dia no trajeto casa-trabalho-casa.

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, por exemplo, tem levantado em sua campanha de reeleição que, caso ela seja reeleita, ela iniciará um plano onde moradores poderão encontrar tudo em um raio de 15 minutos de casa. A ideia é bem simples: ao invés de ter um centro da cidade com tudo, cada área terá pequenos centros comerciais onde será possível encontrar itens essenciais para o dia a dia. Bem no modelo das superilhas de Barcelona que já falamos no passado. Além disso, ela planeja reduzir o número de áreas para estacionar (vagas) de 83.500 para 23.500. Com uma redução de 72% no espaço destinado a veículos automotores, Paris deverá passar a investir na micromobilidade urbana, que inclui o uso de bicicletas e patinetes compartilhados que já temos hoje.

Apesar de ser uma alternativa que ajuda a economizar dinheiro, tempo e colabora com o meio ambiente, a micromobilidade tem enfrentado diversos desafios no Brasil, seja por questões ligadas à segurança do usuário ou locais adequados para a nova modalidade de veículos. Se pararmos para analisar o caso da capital da França, uma política importante trouxe para sua campanha um tema que afeta a todos na cidade e um projeto claro de como será implantado.

A ideia dela é baseada em uma sugestão do professor da Universidade Pantheon-Sorbonne de Paris, Carlos Moreno, que considera que precisamos ter uma mudança radical de estilo de vida. Ele afirma que nossas cidades ainda são impulsionadas pelo petróleo e seu impacto nas estradas e no planejamento urbano geral, mas que "prezar pela qualidade de vida exige que construamos novas relações entre dois componentes essenciais da vida urbana: tempo e espaço". Na minha opinião, é uma mudança irreversível. Só uma questão de tempo. Então, se você está pensando em trocar de carro, vai a dica: vende ele enquanto é tempo e compra uma bela bike!

Com isso em mente, lembre-se que o primeiro turno das eleições municipais no Brasil acontecerá no dia 4 de outubro deste ano. É nossa oportunidade de novamente definirmos o rumo que queremos que as nossas cidades sigam. Em Paris, a Anne propõe uma transformação ecológica que visa ter menos poluição, melhorar a vida diária dos parisienses e fazer com que todas as ruas do município tenham ciclovias até 2024.  Qual é a proposta dos candidatos na sua cidade? Vamos começar a instigá-los para termos cidades mais inteligentes.

Nos vemos na semana que vem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.

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