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Coronavírus mostra que alunos dentro de sala de aula é modelo ultrapassado

Renato de Castro

10/03/2020 04h00

Funcionária limpa sala de aula de colégio em Turim, na Itália. Escolas do país estarão fechadas até 3 de abril (Massimo Pinca/Reuters)

Recentemente, todos temos acompanhado o desenrolar da proliferação do coronavírus pelo mundo, tendo o Brasil confirmado  25 casos até o momento. Além do claro problema de saúde pública, essa crise global tem afetado economias e até mesmo o aprendizado de futuras gerações e profissionais. A Itália, onde eu moro, é o segundo país com mais óbitos ligados ao vírus e também o segundo com mais casos da infecção no mundo. Como medida para evitar a propagação do covid-19, o governo resolveu colocar toda a região da Lombardia e mais 14 províncias em quarentena, incluindo a minha (Padova), mandando para casa milhões de estudantes ao fechar as escolas até o dia 3 de abril. Tal medida trouxe à tona o quão dependente do tradicional método de ensino "professor-aluno-sala de aula" o país é.

Com as escolas e universidades fechadas, o ensino parou e todo cronograma de aprendizado foi afetado. Em minha região, faço parte, como voluntário, de uma força-tarefa do governo que está tentando conectar professores e alunos de modo alternativo para que o aprendizado continue sem colocar a saúde dos cidadãos em risco. Mas o que pode ser feito?

Segundo alguns especialistas, o modelo tradicional de escola que conhecemos foi desenvolvido em um período em que se era necessário formar cidadãos para trabalhar majoritariamente em fábricas. Lembra que já falamos disso em outro texto? Com o passar dos anos, a sociedade mudou, nossas necessidades também, mas os métodos de ensino permaneceram os mesmos.

Escolas com salas padronizadas, com carteiras alinhadas simetricamente, onde crianças uniformizadas, todas nascidas no mesmo ano, passam pelo menos 4 horas por dia recebendo informações sobre o passado, de forma linear e impessoal, certamente não formará cidadãos flexíveis e competitivos para o futuro incerto que nos espera. (Acervo Arquivo Público de São Paulo)

Há alguns anos, o conceito de "learning space" (espaço de aprendizado) surgiu como uma alternativa para que o ensino seja adaptado ao hoje. A ideia é um tanto quanto vasta e diversos modelos como integrativo, baseado em projetos e de academia podem ser explorados. O que eles têm em comum é que há uma variedade de estilos, configurações e locais que podem ser utilizados para que o aprendizado seja o melhor possível.

Entre os tipos de instalações educacionais está o AVA (ambiente virtual de aprendizagem) que nada mais é do que plataformas disponíveis na internet para aprendizado. Se você nunca teve oportunidade de interagir com um sistema desse, ele é bem interessante. Além de seguir uma estrutura e conteúdo básico como qualquer curso, também é possível definir avaliações em períodos diferentes de aprendizado, ter atividades e interações entre participantes e analisar relatórios e resultados, por exemplo.

Embora o modelo tenha sido adotado com sucesso em diversos países da Europa, infelizmente, a Itália não é um deles e por isso estamos tentando "correr atrás do prejuízo" no momento. Engane-se quem pensa que os AVAs são somente para cursos à distância: cada vez mais, há uma integração entre o mundo real e virtual. Dessa forma, além dos alunos terem a oportunidade de seguirem seu próprio ritmo, eles têm a chance de verificar conteúdos adicionais e compartilhar experiências online. A identificação de dificuldades de aprendizado e falhas no ensino também fica mais clara para as instituições educacionais, o que permite que ajustes sejam feitos ao longo do processo.

Se a Itália já tivesse consolidado ambientes virtuais de aprendizagem no passado, mesmo com o fechamento temporário das escolas, o ensino seguiria de alguma forma em paralelo. Mas o que o coronavírus tem nos mostrado é que mesmo em nações consideradas como de primeiro mundo, nós ainda estamos emperrados no século passado.

Como você vê a integração do mundo real e virtual? Quais aprendizados você acha que as nações tirarão dessa crise? Na sua região isso seria diferente? E o principal, o nosso Brasil está preparado para um estado de "vamos parar o país por algum tempo"?

Em ano de eleição, é importante entender como os políticos têm se posicionado em relação a isso. Deixe os seus comentários abaixo para sabermos como seria uma crise desse calibre em cada canto do Brasil. Nos vemos no próximo texto.

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.

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