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Construindo comunidades inteligentes com crianças que não escrevem mais

Renato de Castro

24/09/2019 04h00

A Finlândia está em primeiro lugar nos rankings de melhor educação e população mais feliz do mundo. Foto: REUTERS/Petr Josek

Depois de uma breve visita à bela e polêmica cidade da "felicidade", desembarcamos em um dos países mais ousados da Europa. Apesar de já ter acompanho de perto o dinamismo das economias escandinavas ao participar de eventos em Estocolmo, Oslo e Copenhague, ainda faltava o "carimbo" de Helsinki. Foi minha primeira vez na Finlândia e confesso que estava bastante ansioso.

Eu estava muito curioso para conhecer o país que aboliu, em 2016, a escrita cursiva do currículo escolar básico. Isso mesmo, os finledansinhos já não aprendem mais a escrever a tradicional letrinha-de-mãos-dadas. Na época desse polêmico decreto, eu escrevi alguns textos sobre o tema e nem preciso dizer a quantidade de comentários negativos sobre essa medida do governo local.

Acreditem, ao longo dos três últimos anos que venho discutindo esse ponto, eu já ouvi mil argumentos a favor e outros dois mil contra. Na verdade, a ideia é focar não somente na letra de forma, mas principalmente nas habilidades de digitação, o que parece fazer sentido, já que é incontestável a influência da tecnologia nas nossas vidas.

Seja você a favor ou contra, é importante levar em consideração que a Finlândia esteve entre os primeiros lugares no ranking mundial de educação nos últimos cinco anos consecutivos. Sem falar o primeiro lugar, mais uma vez, no World Happiness Report (Relatório Mundial da Felicidade) de 2019. Parece que sabem o que estão fazendo, não acha?

Mas voltando à visita. Aproveitando minha participação em um evento de Inteligência Artificial, me permiti algumas horas para visitar projetos locais de Smart City. O que mais me chamou a atenção foi o novo distrito de Kalasatama.

Localizado na parte leste da cidade, a somente quatro estações de metrô do centro de Helsinki, a região era praticamente uma área rural há menos dez anos. Seguindo quase o mesmo ritmo frenético de crescimento dos distritos de Dubai, que comentei no meu texto anterior, Kalasatama foi construída combinando modernidade com um clima de cidade do interior.

Desde o início, o foco do projeto foi a construção de uma comunidade e não simplesmente de edifícios. Ruas tranquilas, crianças brincando em parques públicos, ciclovias, vias exclusivas para caminhada e corrida e até um bosque natural com um jardim zoológico fazem parte do bairro inteligente.

Mesmo com a grande crise que atinge a Europa desde 2008, o projeto foi (e ainda é) um sucesso devido à criação de um espírito de comunidade dinâmica, entrosada e politicamente participativa. As pessoas que decidiram se mudar para lá foram motivadas por um propósito de vida, muito mais que pelo preço do metro quadrado ou uma possível redução de impostos. Faz sentido para você? Para mim sim, muito!

Seguindo meu compromisso de compartilhar com vocês tudo de legal que vejo em minhas viagens, fiz um vídeo para mostrar um pouco desse conceito. O Brasil está iniciando um novo ciclo de crescimento econômico (parece) e projetos regionais de urbanização estão aparecendo por toda a parte. O projeto de desenvolvimento do vetor Norte da bela cidade de Varginha e o futurístico Portal IBYRAMA, que promete revolucionar o mercado da região metropolitana de Belo Horizonte, ambos em Minas Gerais, são alguns bons exemplos desse "boom" que temos por aí. Fica então o benchmarking para eles ;).

Hoje não construímos cidades inteligentes simplesmente com concreto armado e tecnologia. Nossa sociedade está evoluindo para outro patamar de relacionamento social, participação cívica e, principalmente, de consciência política. Você não acredita que isso vai chegar aí no Brasil, né? Pois eu digo que já chegou e só vai crescer cada vez mais. Quem (sobre)viver, verá!

Concorda ou não com o que eu escrevi desta vez? Participe desta discussão. Deixe seu comentário aqui embaixo do texto que terei o enorme prazer de responder a todos, prós ou contra, como sempre. Desejo um bom início de primavera a todos e nos vemos na próxima semana.

Sobre o autor

Renato de Castro é expert em Cidades Inteligentes. É embaixador de Smart Cities do TM Fórum de Londres, membro do conselho de administração da ONG Leading Cities de Boston e Volunteer Senior Adviser da ITU, International Telecommunications Union, agência de Telecomunicações das Nações Unidas. Acumulou mais de duas décadas de experiência atuando como executivo global em países da Ásia, Américas e Europa. Fluente em 4 idiomas, é doutorando em direito internacional pela UAB - Universidade Autônoma de Barcelona. Renato já esteve em mais de 30 países, dando palestras sobre cidades inteligentes e colaborando com projetos urbanos. Atualmente, reside em Barcelona onde atua como CEO de uma spinoff de tecnologia para Smart Cities.

Sobre o blog

Mobilidade compartilhada, Inteligência artificial, sensores humanos, internet das coisas, bluetooth mesh etc. Mas como essa tranqueira toda pode melhorar a vida da gente nas cidades? Em nosso blog vamos discutir sobre as últimas tendências mundiais em soluções urbanas que estão fazendo nossas cidades mais inteligentes.

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